É fácil perguntarmo-nos por que razão existem tantas línguas. Afinal, os animais conseguem perfeitamente entender-se em todo o mundo sem essas diferenças incómodas.
Na realidade, esta diferença não passa duma ilusão: os animais não falam “línguas”; expressam-se na linguagem que têm inscrita nos genes, que lhes permite transmitir sentimentos básicos e instintivos. Os homens também têm essa linguagem: o riso, o choro, o grito, o gemido, entre outros. Também nós temos a nossa linguagem animal e utilizamo-la todos os dias.
Já as línguas humanas são códigos que não estão inscritos nos genes, mas são antes aprendidos depois do nascimento. As línguas surgiram quando, na evolução do ser humano, houve necessidade de comunicar sentimentos, noções, objectos que não existiam antes e que necessitavam de algo mais do que aquilo que já sabíamos expressar desde sempre. As línguas nasceram quando a cultura e a tecnologia nasceram: são um instrumento inventado pela humanidade, talvez o mais importante instrumento de todos.
As línguas mudam e fazem-se à medida das necessidades dos seus falantes. Talvez no início da humanidade tenha havido uma única língua. No entanto, para manter essa uniformidade, teria sido necessário que toda a humanidade estivesse em contacto permanente e pudesse decidir todos os dias, numa espécie de “parlamento mundial”, o que chamar a cada nova invenção e conceito que fosse necessário comunicar. Se hoje isso não seria impossível – embora as dificuldades fossem óbvias –, há alguns milhares de anos até a aldeia vizinha era remota.
Assim, como os vários indivíduos e comunidades tinham necessidades diferentes e experiências diferentes, as línguas acabaram por se tornar diferentes. Não há nada nos objectos que nos obrigue a chamá-los da mesma maneira na Europa e na Polinésia e, até há alguns anos, não havia uma rede mundial que permitisse decidir em tempo útil o que chamar a cada coisa (e nem com a Internet a diversidade se vê realmente ameaçada).
Esta é a explicação da existência de várias línguas. Mas será que, se fosse praticável (e não o é), a uniformidade linguística seria preferível? Como vimos, essa uniformização total só seria possível no caso dum código genético que nos indicasse como comunicar, o que acontece em certas situações particulares (sorriso, gemido, etc.). Um código desse tipo é imutável, inflexível, invariável. O facto de comunicarmos através das línguas dá-nos uma flexibilidade e uma velocidade de adaptação e comunicação impossíveis de ter quando se usa uma linguagem animal.
A cada situação particular, o ser humano adapta-se e adapta o código com que comunica, negociando-o em cada interacção. Se houvesse apenas uma língua em todo o mundo, ninguém poderia afastar-se dessa norma imutável. A cada objecto, corresponderia um só nome e os novos objectos teriam de ser nomeados por consenso (certamente demorado), o que nem sempre é a forma mais eficaz de agir. De certa forma, os nomes tornavam-se sagrados, pois qualquer divagação em relação ao nome estabelecido oficialmente poria em risco essa uniformidade mundial. Sem nos apercebermos, uma das nossas maiores liberdades – a de nos expressarmos como cada situação, pessoa ou momento nos pedem – estaria eliminada. Uma única língua a nível mundial significaria a perda duma das principais características e vantagens do ser humano.
Babel é verdadeira: os humanos, ao perseguirem o conhecimento e da invenção, criaram as várias línguas com que se adaptam a cada passo desse percurso, ganhando a flexibilidade e inteligência dinâmica que nos caracteriza. A Torre é gigante, a comunicação uniforme impossível, mas a construção possível, em cada uma das línguas dos homens.
[...] Por que razão existem tantas línguas? [...]